- Você tem certeza disso? - perguntou o anjo à Ícaro.
- Sim.
- Mas, de todas as respostas que você pode ter respondidas, de todas as possibilidades, por quê escolheu justo esse caminho?
- Eu preciso saber pelo que vou estar lutando.
- Pois bem. - suspirou o anjo, enquanto retirava um tomo da prateleira. - Você sabe como os humanos acreditam que D’us criou o mundo em seis dias, e descansou no sétimo?
- Sim, já ouvi falar que algumas religiões acreditam nisso.
- E foi isso que aconteceu, de certa forma. - o anjo folheou o livro, até chegar na página que queria. - Só que o Criador não descansou no fim da criação. Ele morreu.
Ícaro tentou manter a expressão serena. Há muito aprendera que nem tudo que os celestiais falam deve ser interpretado de forma literal. Tentou observar as páginas abertas nas mãos do anjo, mas a informação ali não parecia bater com a história contada.
- Veja bem, Ícaro. Nós, anjos, nascemos da vontade do Criador. Ele pensou e nós surgimos. De pura Luz, de pura Vontade, para serví-Lo sem contradições. - o anjo pôs o livro de lado e virou sua atenção à outro tomo. - Os humanos foram criados, construídos, modificados. Foi um processo que demandou tempo, cuidado, carinho, atenção. E por fim, os humanos ainda precisavam de um último sopro divino em seu ser.
- Eu sempre pensei que a Vontade do Senhor era instantânea. - disse Ícaro, enquanto fingia procurar por algo entre as prateleiras.
- Se Ele desejasse, assim seria. Mas não foi o caso com os humanos. - e o anjo deixou aquele tomo sobre o outro e se pôs a procurar mais uma vez. - Entenda, Ícaro, que os humanos precisavam de uma essência acima daquela que nós, anjos, possuímos. Eles foram criados para serem o máximo da existência, o ápice da evolução. A alma deles precisa ser composta também por algo divino.
Ícaro pensou entender o rumo que a história tomaria a partir dali.
- O senhor está me dizendo que…
- Para dar vida… Perdão. Para dar consciência e razão aos humanos, D’us criou suas almas a partir da própria essência. Cada alma humana é, na verdade, um fragmento do Criador. Cada ser humano possui a capacidade divina de se iluminar e, um dia, ascender.
Ícaro refletiu sobre as possibilidades daquela realidade.
- Então é por isso que Lúcifer…
- A Estrela da Manhã teve ciúmes dessa capacidade humana. Ele não concordou com a decisão do Criador, e tentou roubar a essência divina para si próprio, se tornando D’us. Foi uma pena que a última visão do Criador tenha sido da expulsão de seu filho preferido. Eu estava lá e pude sentir a tristeza em sua existência.
O anjo ficou calado por alguns segundos, e Ícaro pode ter certeza que, se fosse possível naquele plano, o anjo estaria segurando lágrimas no momento.
- Você entende agora o que a nossa batalha contra a Estrela da Manhã representa? A cada humano que os demônios corrompem, a cada alma que eles arrastam e aprisionam no inferno, a cada demonização que eles proporcionam, é um fragmento a mais, é um passo a frente para Lúcifer se tornar um novo D’us.
O anjo finalmente recolheu o último livro e, empilhados um sobre o outro, entregou os três à Ícaro.
- Esse é o nosso Legado. Defendemos os humanos não só porque fomos criados para isso. Protegemos cada alma viva, não só porque aprendemos a amar a criação divina. Nós lutamos contra os servos de Lúcifer, porque cada fragmento é importante. Cada alma humana possui um peso maior do que qualquer legião celestial. E a Estrela da Manhã sabe disso… Você compreende agora? Sua dúvida foi saciada?
- Sim. - Ícaro recolheu os livros e caminhou em direção à saída. Quase no fim, decidiu por fazer uma última pergunta. - Me diga uma coisa: se o nosso Legado é proteger os humanos, qual é a função deles? Se tornarem novos Criadores?
O anjo esboçou um meio sorriso. Os rituais estavam fazendo efeito, e a curiosidade humana já aflorava no interior de Ícaro.
- Isso não cabe a nós saber. Somente à eles descobrir. Me responda uma coisa, Ícaro: agora que você sabe da verdade, não teme pela sua expedição? Não acha que vai se sentir muito frágil lá embaixo?
Ícaro pensou em responder com uma piada, mas aquele anjo provavelmente não compreenderia o novo senso de humor que ele havia desenvolvido.
- Não senhor. Agora que sei a verdade, pelo que estarei lutando, agora sim tenho mais forças do que antes. Se me permite, preciso finalizar os rituais de encarnação…
- Vá, Ícaro. Tenho fé em sua jornada, mesmo sabendo que ela não será fácil.
Ícaro se virou, sem despedir do anjo, e caminhou em direção à catedral, onde os celestiais o esperavam para finalizar os rituais. Estava ansioso para descer à Terra, e viver uma vida humana. Mas agora que sabia daqueles mistérios, sentiu um misto de medo e exitação, em saber se sua alma continuaria celeste, ou se ele também receberia uma centelha divina dentro de sí, assim como o resto da humanidade.